terça-feira, 19 de dezembro de 2017

#OCUPATUDORS: socialização política entre jovens estudantes nas ocupações de escolas no Rio Grande do Sul


Texto meu e do Ricardo Severo, publicado na revista Educação Temática Digital da UNICAMP.

Resumo:

O artigo analisa as ocupações realizadas nas escolas do estado do Rio Grande do Sul, no ano de 2016, e tem por objetivo identificar quais são as variáveis significativas para a construção do processo de socialização política dos estudantes envolvidos. A pesquisa foi realizada nos municípios de Pelotas e Rio Grande, mediante realização de nove grupos de discussão com estudantes que fizeram parte das ocupações, além da aplicação de cinquenta e seis questionários semiestruturados. Verificou-se que o processo de socialização política contém dimensões estratégicas da ação dos estudantes, os quais são observados nos processos de interação com outras categorias da rede de apoio, fundamentais para a manutenção das ocupações, assim como a identificação de um antagonista responsável pela situação da educação: nesse caso, o governo executivo estadual. Ainda, a constituição do agir político baseia-se na busca por autonomia e pela apresentação de pauta material e simbólica, sendo possível concluir, dessa forma, que o processo de ocupação é produzido numa lógica pautada pela auto-organização, aspecto demonstrado pela realização das oficinas e limpeza dos ambientes. Ademais, durante as ocupações e, como resultado final, foi perceptível um processo de apropriação da capacidade de agência desses estudantes e compreensão consciente do ambiente escolar como público, gerando sentimento de responsabilidade pelo mesmo.


Link para artigo completo: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/etd/article/view/8647792/15201

MedioTec e as lógicas privadas na educação profissional


Texto originalmente publicado em:
PERONI, Vera; LIMA, Paula Valim de. Anais do 1º Seminário Nacional Redefinições da Fronteiras entre o Público e o Privado: Implicações para a democratização da educação. Porto Alegre: UFRGS, 2017.

Introdução
Neste resumo expandido será demonstrada parte de uma análise maior sobre o MedioTec, que é a principal política de educação profissional do governo ilegítimo de Michel Temer, associada ao Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec). Com o programa pretendem ofertar vagas de educação profissional técnica de nível médio em modalidade concomitante. A ideia do governo é oferecer mais de 107 mil vagas divididas em 131 cursos diferentes, só em 2017.
O próprio Pronatec, em termos gerais, já é bastante questionável. Como apontou Vera Peroni, o programa faz parte de um conjunto de políticas educacionais ou programas destinados principalmente para as pessoas mais vulneráveis, porém a “[...]oferta, com algumas exceções, dá-se de forma precarizada, com bolsas ou salários simbólicos, em locais pouco apropriados, sem espaços democráticos de participação”(2015, p.28-29). Ou como nos afirmam Romir Rodrigues e Maurício Santos:
[...]o Pronatec forma-se na confluência de vários elementos. As políticas de um Estado desenvolvimentista, característico do projeto neodesenvolvimentista, a compreensão da educação profissional como investimento em capital humano, a inserção de práticas gerencialistas na gestão estatal e a implantação de parcerias público-privadas são alguns desses elementos cristalizados nos pressupostos do Pronatec, pois, desde os documentos e leis que o implantaram, é possível visualizar a esfera privada como elemento central neste Programa. (2015, p.123)

MedioTec e a face neoliberal da Educação Profissional
O Brasil vive um momento de grande instabilidade política. Os ataques orquestrados contra os serviços públicos e seus servidores, os cortes de verbas para programas sociais, educação, saúde pública, a Emenda Constitucional 95 que congela o teto de investimentos estatais por 20 anos, a reforma trabalhista sob medida para agradar os empresários, a reforma da previdência em tramitação, manutenção de uma parcela de aproximadamente 50% do orçamento para pagar juros da dívida pública, beneficiando o mercado financeiro com juros estratosféricos, a reforma do ensino médio que aprofunda uma dualidade classista da educação brasileira, são políticas do governo golpista, apoiado por amplos setores da grande imprensa e empresários, e não deixam dúvidas sobre os objetivos de radicalização neoliberal por trás do golpe.
Dardot e Laval, ao analisarem o neoliberalismo em sua ação global na atualidade, afirmam que:
Não há dúvida de que é uma guerra sendo travada pelos grupos oligárquicos, na qual se misturam de forma específica, a cada ocasião, os interesses da alta administração, dos oligopólios privados, dos economistas e das mídias (sem mencionar o Exército e a Igreja). Mas essa guerra visa não apenas a mudar a economia para ‘purificá-la’ das más ingerências públicas, como também a transformar profundamente a própria sociedade, impondo-lhe a fórceps a lei tão pouco natural da concorrência e o modelo da empresa. Para isso, é preciso enfraquecer as instituições e os direitos que o movimento operário conseguiu implantar a partir do fim do século XIX, o que pressupõe uma guerra longa, contínua e muitas vezes silenciosa, qualquer que seja a amplidão do ‘choque’ que sirva de pretexto para determinada ofensiva. (DARDOT; LAVAL, 2016, p.20-21)

A educação pública é mais um elemento a ser atacado pelo golpismo neoliberal, que busca romper fronteiras e transformar tudo em mercadoria. No caso do MedioTec, o que temos é uma apropriação do público por lógicas privadas financiadas por dinheiro público, para servir aos interesses empresariais.
A questão central é que o MedioTec escancarou o interesse do governo Temer em atender os anseios do empresariado, ao propor a formação de uma força de trabalho especializada na medida da importante limitação, na ótica do capital, que não permita a emancipação e que esteja pronta para ser explorada de forma barata pelas grandes empresas.
Segundo o “Documento de referência de execução para todas as redes ofertantes”(MEC, 2017a) o MedioTec
[...] ofertará vagas em cursos técnicos concomitantes ao ensino médio para alunos regularmente matriculados nas redes públicas de educação. O MedioTec tem como proposta o fortalecimento das políticas de educação profissional mediante a convergência das ações de fomento e execução, de produção pedagógica e de assistência técnica, para a oferta da educação profissional técnica de nível médio articulada de forma concomitante com as redes de educação e com o setor produtivo. (MEC, 2017a, p.1)

Um primeiro ponto a observar em uma análise do documento é que das três possibilidades de modalidades de educação profissionais possíveis a concomitante foi eleita como prioritária pelo governo. As modalidades de ensino médio integrado ao técnico, subsequente, em que os estudantes fazem o curso técnico após concluírem o ensino médio, e podemos apontar aqui o PROEJA, que é integrado, mas para jovens e adultos, foram descartadas como possibilidade.
Na LDBEN, no inciso II do artigo 36-C, a modalidade concomitante é a que permite que o estudante realize o ensino médio em uma instituição e o ensino profissionalizante em outra. A principal suposição do porquê a modalidade concomitante foi escolhida em detrimento das outras é a que essa se adequa melhor aos objetivos imediatos do governo, que é o de servir ao empresariado do setor educacional e deslocar vultosos recursos para o Sistema S. Abre a possibilidade do estudante realizar um curso de ensino médio, caro e com toda a responsabilidade social que possui em uma escola pública, e o curso técnico em uma instituição privada com a vaga bem paga com dinheiro público.
Atende aos interesses empresariais com formação de força de trabalho, atende aos interesses ideológicos pois não promove educação crítica, mas apenas treinamento, e atende aos interesses de um setor político muito importante no apoio e financiamento do golpe institucional dados pelo bloco no governo, que é o Sistema S e grupos empresariais que têm atuado no mercado educacional brasileiro, inclusive com capitais abertos em bolsas de valores. Setores que como instituições conveniadas ganharão milhares de reais para aplicar os cursos de baixa qualidade para a juventude, vulnerabilizada pelo caos social instalado.
Ao final do primeiro parágrafo do documento citado anteriormente, também já fica evidente a “articulação com o setor produtivo” preocupação obsessiva que se reflete em todo o documento, partindo do pressuposto de uma falácia de que ao planejarem os cursos com base nas demandas regionais de empregos, mapeadas pelos Ministérios, aumentaria a possibilidade de “empregabilidade” dos concluintes. Sobre esse tema, a secretária de Educação Profissional e Tecnológica Eline Nascimento, faz várias declarações à assessoria de comunicação do MEC, que publica no site do órgão para que não restem dúvidas sobre o que determina os cursos ofertados.
[...] pelo MedioTec o mercado de trabalho é que vai servir de parâmetro para essa definição. ‘Antes a oferta de vaga era estimulada pelas ofertantes. Por este programa, as possibilidades de inserção dos jovens serão mais rápidas e bem maiores.’ (MEC, 2017b)
A oferta dos cursos teve como base um mapeamento de empregabilidade a longo prazo. ‘As vagas que ofertamos estão de acordo com o mapa elaborado pelos ministérios, que mostra as demandas do mercado quando essas turmas concluírem’, explicou a secretária de Educação Profissional e Tecnológica do MEC, Eline Nascimento. (MEC, 2017c)

Ao entregar a definição dos perfis dos cursos ao sabores dos mercados, o Estado abre mão da postura de indução de matrizes produtivas alternativas e diversificadoras, o que poderia evitar que regiões inteiras fiquem reféns de um único arranjo produtivo, para atender aos interesses de qualificar força de trabalho barata para ser explorada por empresas que, a qualquer momento, abandonam as regiões por mais vantagens em outros países ou estados, devido a guerra fiscal, deixando um rastro de desemprego e destruição social.
O governo aposta na empregabilidade no grande capital, reforçando o ciclo de dependência da população, ao invés de estimular a autonomia na busca por alternativas de vida e de organização de trabalhos cooperativos, que garantam a soberania para a cidadania e até a segurança alimentar e social da população. O governo torna-se indutor neoliberal, ao investir dinheiro público em programas educacionais que formam pessoas com foco único na empregabilidade capitalista, não induzindo alternativas. Como afirma Vera Peroni , em parte citando David Harvey
[...] é importante frisar que o Estado mínimo proposto é mínimo apenas para as políticas sociais conquistadas no período de bem-estar social. Na realidade, o Estado é máximo para o capital, porque, além de ser chamado a regular as atividades do capital corporativo, no interesse da nação, tem, ainda, de criar um ‘bom clima de negócios’, para atrair o capital financeiro transnacional e conter (por meios distintos dos controles de câmbio) a fuga de capital para “pastagens” mais verdes e lucrativas. [...] Assim, verifica-se que mesmo os governos mais comprometidos com a lógica neoliberal não intervencionista têm sido grandes interventores a favor do grande capital. (PERONI, 2015, p.19-20)

Outro tema importante são as relações entre o MedioTec e a reforma do ensino médio, pois segundo o “Documento de referência”
O MedioTec é uma ação do Ministério da Educação, no âmbito do Pronatec, que catalisa a reforma do ensino médio e que tem, entre seus propósitos, a formação técnica e profissional como mais uma alternativa para o jovem. Hoje, se o jovem quiser cursar uma formação técnica de nível médio, ele precisa cursar 2400 horas do ensino médio regular e mais 1000 ou 1200 horas do técnico. O Novo Ensino Médio permitirá que o jovem opte por uma formação técnica profissional dentro da carga horária do Ensino Médio regular desde que ele continue cursando português e matemática até o final. E, no fim dos três anos, ele terá um diploma do ensino médio e um certificado do ensino técnico. (MEC, 2017a, p.5)

Este trecho anterior escancara a dualidade que vai se abrir na educação brasileira, entre os que cursarão a maioria das disciplinas propedêuticas para se prepararem para ingressar no ensino superior e abrir novas possibilidades de itinerários formativos, e os que, ao cursarem o técnico com a carga horária das disciplinas propedêuticas reduzidas à português, matemática e inglês, ficarão restritos, ou poderíamos falar “reféns” de uma opção durante a juventude que, como todos sabemos, não é um momento perfeito para se tomar decisões que afetam a vida toda.
Esta política, que de certa forma procura frear a mobilidade social que ocorreu nos anos anteriores, também está relacionada com os fatores que motivaram o golpe e que se refletem na política educacional, em que as classes dominantes buscam restaurar o monopólio dos privilégios e uma hegemonia conservadora.
Os critérios de seleção do MedioTec também são sintomáticos, pois dois pontos chamam atenção. Apesar de insistir que o programa é voltado para jovens das redes públicas de ensino em situação de vulnerabilidade, o Documento de referência cita as palavras “mérito” ou “meritocracia” quatro vezes como um dos critérios de seleção, associado aos cuidados com a possibilidade de evasão. Ou seja, a seleção parte do pressuposto que se o educando tem possibilidade alta de evadir, já nem deve ser selecionado.
Os critérios para evitar a evasão são os de evitar, na seleção, que os estudantes com potencial de evasão, como distância do local do curso, acessem o programa. Não há preocupação com a garantia de estrutura que assegure o direito à educação do jovem, como o investimento em transporte deste estudante por meio de vale-transporte. Apesar de o programa prever a concessão de bolsas, os critérios parecem estar invertidos.
Esse elemento também desmascara o discurso de que cada estudante vai "escolher" a profissão que melhor lhe convier. Pelos critérios, os estudantes escolherão o que estiver à disposição e só, pois ao ousarem algo diferente, correrão o risco de ficar de fora do programa por entrarem na faixa de risco de evasão.

Considerações finais
Ainda é muito cedo para se tirar maiores conclusões sobre o MedioTec, pois ainda é praticamente apenas uma intenção, porém já se pode afirmar que parece um remendo, para por um lado mostrar algum serviço do governo em relação a educação profissional e, por outro saciar os cofres de setores que auxiliaram no financiamento do golpe. Tudo dentro de uma visão neoliberal de precarização da educação pública, criando uma educação dualista, em que quem pode pagar por educação a compre de empresas privadas, restando as escolas públicas desmontadas para quem não tem nada à pagar. Do ponto de vista do capital, tudo fica certo, cada um paga o que pode por educação. Quanto mais rico, melhor a escola, melhor a posição para se manter enquanto classe dominante. Por outro lado, quanto mais pobre, menor a qualidade de ensino, freando a possibilidade de mobilidade social e acesso a melhores salários. O MedioTec é a perfeita expressão de uma educação pobre para os pobres seguirem pobres e os ricos, ricos.

Referências Bibliográficas

BRASIL. Lei n.º 9394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília, DF, 1996.

BRASIL. Ministério da Educação (MEC). MedioTec. Documento de referência de execução para todas as redes ofertantes. Brasília, DF, 2017a. Acessado em 27/7/2017, site: http://portal.mec.gov.br/mediotec/publicacoes-mediotec

BRASIL. Ministério da Educação (MEC). Encontro em Brasília discute ampliação do ensino técnico. Brasília, DF, 7 de fevereiro de 2017b, 15h54. Acessado em: 1/8/2017 às 6h30min., site: http://portal.mec.gov.br/busca-geral/209-noticias/564834057/44911-encontro-em-brasilia-discute-ampliacao-do-ensino-tecnico

BRASIL. Ministério da Educação (MEC). MedioTec oferece 107 mil vagas em cursos técnicos gratuitos. Brasília, DF, 30 de junho de 2017c, 15h54. Acessado em: 1/8/2017 às 10h., site: http://portal.mec.gov.br/busca-geral/209-noticias/564834057/50931-mediotec

DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A nova razão do mundo. Ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016.

JINKINGS, I.; DORIA, K.; CLETO, M. (Org.). Por que gritamos Golpe? Para entender o impeachment e a crise política no Brasil. São Paulo: Boitempo, 2016.

PERONI, Vera Maria Vidal. A privatização do público: implicações para a democratização da educação. In: PERONI, Vera Maria Vidal (org.). Redefinições das fronteiras entre o público e o privado: implicações para a democratização da educação. Brasília: Liber Livro, 2013.

PERONI, Vera Maria Vidal. Implicações da relação público-privado para a democratização da educação no Brasil. In: PERONI, Vera Maria Vidal (org.). Diálogos sobre as redefinições no papel do Estado e nas fronteiras entre o público e o privado na educação. São Leopoldo: Oikos, 2015.

RODRIGUES, Romir de Oliveira; SANTOS, Maurício Ivan dos. O Pronatec na fronteira entre o público e o privado. In: PERONI, Vera Maria Vidal (org.). Diálogos sobre as redefinições no papel do Estado e nas fronteiras entre o público e o privado na educação. São Leopoldo: Oikos, 2015.


1 Professor do IFRS Campus Viamão. Mestre em História e doutorando em Educação na UFRGS. Email: mario.segundo@viamao.ifrs.edu.br.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Inicia rodada de ataque do governo golpista de Temer contra o Ensino Profissionalizante Integrado ao Médio

Vai a seguir a entrevista que Maria Helena Guimarães, Secretária Executiva do MEC golpista, deu à Revista Época, sobre o "novo ensino médio" que está sendo pensado pelo governo federal, e que atingirá em cheio a Rede Federal de Educação Profissional Científica e Tecnológica. 
Maria Helena é uma entusiasta do ensino técnico do sistema S, voltado para formar força de trabalho barata, preferencialmente alienada, para que seja explorada pelo empresariado sem resistência. A proposta que está a seguir, desmonta o ensino médio profissionalizante integrado, como fez anteriormente o governo FHC. 
Isso quebra a espinha dorsal da principal concepção político pedagógica dos Institutos Federais, que é o trabalho como princípio educativo, na busca de formação de pessoas com formação técnica, mas que também tenham a formação para o exercício da cidadania crítica e o estímulo a inovação, ao associativismo entre trabalhadores na busca por uma sociedade mais justa e um planeta mais sustentável ambientalmente. 
O trabalho não deve ser realizado de maneira alienada e o trabalhador precisa ter a consciência do seu valor e de seu poder criador, ao perceber que o desenvolvimento da técnica e do trabalho humano são condições fundantes para a manutenção da vida da humanidade como tal. O trabalho é o principal elemento que nos faz humanos, nos diferenciando dos outros animais.
Novamente se aprofundará um ensino médio para os filhos das elites e um para os das classes trabalhadoras, que bloqueará os processos de mobilidade social pela educação que temos visto nos últimos anos. O projeto que motivou a construção dos IF's está muito ameaçado por este governo.
Além disso, este projeto maluco, tirado da manga sorrateiramente pelos golpistas, é contraditório com anos de discussões dos melhores educadores do país, que participam das Conferências Nacionais de Educação, em suas etapas municipais e estaduais, do Conselho Nacional de Educação e de outras instâncias democráticas e qualificadas, que são legítimas para essa discussão e não um congresso golpista, corrupto e conservador. 
Com este projeto o governo passa por cima de um Plano Nacional de Educação, de uma LDB, amparada na Constituição, e por último, da discussão que tem mobilizado milhares de educadores no país todo, que é sobre a Base Nacional Comum Curricular. Simplesmente definiram que o ensino médio sai da discussão da Base. Com que legitimidade fazem isso?
Usam o argumento que em outros países funciona bem de outro jeito, que só o Brasil tem um ensino médio assim, o que é uma distorção. Já vimos que modelos copiados não resolvem, o que é dito pelos melhores especialistas em educação. Usam este argumento devido a maldita mania do brasileiro de achar que tudo que vem da Europa ou dos EUA é melhor, mas não é. 
A educação norte-americana é absurdamente excludente e alienante, isso dito pelos próprios estadonidenses que pesquisam sua educação como Michael Apple e Diane Ravitch, esta última nem de esquerda é, foi elaboradora de políticas educacionais no governo Bush filho, apesar de ser Democrata.
Acho que a posição do CONIF e IF's, sobre este projeto de Lei que a entrevista aponta, tem que ser barulhenta e taxativamente contra o retrocesso antidemocrático que está por vir. E a mobilização dos(as) educadores(as), com seus sindicatos, forte. Espero que o Sinasefe saia da letargia.
Em fim, resolvi compartilhar estas reflexões confusas e a entrevista, pois vejo com muita gravidade o impacto na vida de todos(as) nós, o que resultará se este projeto for aprovado. Concordo que precisam ocorrer mudanças no ensino médio, e temos discutido isso nas escolas, mas precarização irresponsável não é saída. Além disso, a instância e o tempo para essa discussão é equivocada. 
Entendo que os marcos legais para uma educação de qualidade já existem, o que precisamos é de investimento financeiro pesado, controle social, implementar o Plano Nacional de Educação, que já seria um mega avanço, e deixar que os educadores(as) façam em paz o que sabem fazer melhor.

Link da entrevista:


sábado, 6 de agosto de 2016

O Plano Nacional de Educação, a educação profissional de nível médio e os 7x1 para Alemanha*


     O Plano Nacional de Educação (PNE) 2014-2024 fez dois anos de existência em 24 de junho, porém com poucos avanços em sua implementação. Devido a crise institucional organizada pelos derrotados nas urnas quando da reeleição da presidenta Dilma Rousseff, as políticas educacionais definidas pelo novo PNE estagnaram. Isso somou-se às dificuldades financeiras de estados e municípios e a já conhecida não priorização da educação por parte da maioria dos governantes, embora seja difícil durante a campanha eleitoral, identificar algum candidato a cargo majoritário cujo a educação não seja uma das principais prioridades. 
     Dentre as metas do PNE que não estão sendo cumpridas, está a meta 11 que estipula “triplicar as matrículas da educação profissional técnica de nível médio, assegurando a qualidade da oferta e pelo menos 50% da expansão no segmento público.” Esta meta dialoga com a busca da universalização do ensino médio, com a ampliação do acesso às vagas públicas e diminuição da evasão, com cursos que busquem articular a formação para o exercício da cidadania crítica, ao mesmo tempo em que oferecem ao educando uma formação profissional que o introduza ao mundo do trabalho e uma perspectiva de prosseguimento dos estudos. 
     A Lei Nº 11.892 de 29 de dezembro de 2008, que institui a Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica (Rede Federal EPCT), coloca em movimento uma política de franca expansão das matrículas no ensino profissionalizante. A partir da criação de Institutos Federais de Educação Profissional, Ciência e Tecnologia(IFs), em sua maioria antigas escolas técnicas e agrotécnicas, houve uma interiorização da rede federal de ensino, que hoje possui 38 IFs com 644 campi, espalhados em 528 municípios em todos os estados da federação, responsáveis por quase 1,5 milhão matrículas. 
      Com o novo PNE, a perspectiva era de radicalização da abertura de mais campi e da ampliação de matrículas, para que a meta 11 saísse do papel, principalmente no que se refere a estratégia 11.1, que é expandir as matrículas de educação profissional técnica de nível médio na Rede Federal EPCT, articulando os IFs com os arranjos produtivos locais, reafirmando interiorização da educação profissional”. 
     Porém o que se vê é uma freada na expansão da Rede e das matrículas, com um corte brutal nos recursos de assistência estudantil e outros tipos de investimentos que impactam diretamente na manutenção dos estudantes nas escolas e atração de novos. Só este ano foram cortados 4,2 bilhões de recursos da educação, o Congresso recentemente aprovou o criminoso retorno da desvinculação das receitas da união, o que vai desobrigar o Governo Federal a gastar no mínimo 18% do orçamento em educação e ainda está em tramitação outro projeto que limita os gastos públicos, que certamente afetará o setor educacional. 
     Infelizmente para todos os lados que se olha, se percebe o quanto o PNE está sendo esquecido, e aqui apenas se busca demonstrar um outro item do Plano que se implementado garantiria educação pública de qualidade para mais milhares de jovens, mas que pelos descaminhos da má política está em risco. 
     Se é verdade que a implementação do PNE não garante a resolução de todos os problemas da educação no Brasil, devido suas lacunas, também é verdade que sua implantação na íntegra já seria um passo gigantesco em uma boa direção, assim como sua não implantação seria mais um grande fracasso nacional, infinitamente pior que os 7x1 sofridos da Alemanha. No entanto, toda semana vejo alguém lamentando o vexame na Copa do Mundo de Futebol, mas não do PNE que não está sendo cumprido. Talvez os dois fatos estejam mais intimamente ligados do que parece.

*Texto escrito em junho de 2016.

sábado, 3 de março de 2012

Pequod de Vitor Ramil

Acabei de ler Pequod do Vitor Ramil, estou surpreso, é muito bom. Não levava muita fé nele como escritor, mas assim como o músico ele surpreende e faz a gente viajar em meio a leitura, criando cenários e situações que mesclam ficção com coisas reais, como a descrição do ambiente motevideano e pelotense. Entendi um pouco mais a questão da estética do frio, me senti mais fronteiriço e um pouco Ahab, pai do Peqoud. Todo mundo que lê este livro deve se sentir um pouco Ahab, hehe, assim como todos que leem Cem anos de solidão, em algum momento se identificam com algum Buendia. Acho interessante os livros em que nos enxergamos em parte. Sinto que me conheço melhor com isso. Fica a dica. 
 


segunda-feira, 16 de maio de 2011

Paulo Freire não é o Papai Noel

Quase sempre escuto colegas professores, tratando o militante comunista Paulo Freire como se fosse um “santo”, que deve ser reverenciado e não estudado. Normalmente o despolitizam, e sem saber exatamente o que Freire defendia já vi públicos de pessoas avessas à militância política aplaudirem, simplesmente por ouvirem o nome do famosos educador citado por um palestrante. Vi também pessoas que se dizem apolíticas e que acham que existe educação neutra, dizerem que gostam de Paulo Freire.
Infelizmente Freire se tornou um lugar comum na educação. Todos sabem que ele foi importante e todos reverenciam, mas o porque de sua importância foi esquecido e despolitizado. Não sou um profundo conhecedor de Paulo Freire, apenas li algumas coisas, mas ao ler um trecho de um livro em especial, achei uma parte que prova que apesar dele ser um velhinho simpático de barba branca comprida, ele não é o Papai Noel.
Paulo Freire é patrimônio da esquerda brasileira. Que bom que é admirado por todos. Mas se quiserem realmente homenageá-lo, conheçam o caráter revolucionário de Paulo Freie e façam como ele, militem politicamente por um mundo socialista. Ficar infurnado só dando aula e criticando o mundo cruél que nos cerca, não muda a sociedade. Trabalhador de braço cruzado só reclamando da vida é a alegria das classes dominantes.

Última observação: sim, isso é um recado desaforado para "alguéns", mas serve para todo mundo.

Vai a seguir um trecho de um dos seus livros para sustentar o que disse, mas podemos encontrar outras várias partes de outros livros que também poderiam me ajudar, mas vai lá.

“O mito da neutralidade da educação, que leva à negação da natureza política do processo educativo e a tomá-lo como um quefazer puro, em que nos engajamos a serviço da humanidade entendida como uma abstração, é o ponto de partida para compreendermos as diferenças fundamentais entre uma prática ingênua, uma prática astuta e outra crítica.
Do ponto de vista crítico, é tão impossível negar a natureza política do processo educativo quanto negar o caráter educativo do ato político. Isto não significa, porém, que a natureza política do processo educativo e o caráter educativo do ato político esgotem a compreensão daquele processo e deste ato. Isto significa ser impossível, de um lado, como já salientei, uma educação neutra, que se diga a serviço da humanidade, dos seres humanos em geral; de outro lado uma prática política esvaziada de significação educativa. Neste sentido é que todo partido político é sempre educador e, como tal, sua proposta política vai ganhando carne ou não na relação entre os atos de denunciar e de anunciar. Mas é neste sentido também que, tanto no caso do processo educativo quanto do ato político, uma das questões fundamentais seja a clareza em torno de a favor de quem e do quê, portanto contra quem e contra o quê, fazemos a educação e de a favor de quem e do quê, portanto contra quem e contra o quê, desenvolvemos a atividade política.
Quanto mais ganhamos esta clareza através da prática, tanto mais percebemos a impossibilidade de separar o inseparável: a educação da política. Entendemos então, facilmente, não ser possível pensar, sequer, a educação, sem que se esteja atento à questão do poder. [...]
[...] A educação reproduz a ideologia dominante, é certo, mas não faz apena isto. Nem mesmo em sociedade altamente modernizadas, com classes dominantes altamente competentes e conscientes do papel da educação, ela é apenas reprodutora da ideologia daquelas classes. As contradições que caracterizam a sociedade, como está sendo, penetram a intimidade das instituições pedagógicas em que a educação sistemática se está dando e alteram o seu papel ou o seu esforço reprodutor da ideologia dominante.”

Paulo Freire. A importância do ato de ler. (p.23 e 24)

domingo, 12 de dezembro de 2010

O estranho interesse da Zero Hora na educação pública


Nas últimas semana Zero Hora tem publicado uma enxurrada de matérias sobre educação. São textos editoriais, artigos, notas e reportagens grandes como a do caderno Cultura de sábado dia 11 de dezembro, em que destacam a questão dos professores e da formação profissional. Logo fiquei pensando, o que quer a Zero Hora com isso?
O mais intrigante é que a linha política dos textos não são monolíticas. Algumas defendem posições da direita e do próprio jornal, como a implantação da meritocracia, crítica a “ideologização “ da educação, implantação de sistemas administrativos privados nas escolas públicas e outras. Mas outras matérias são plurais, trazendo posições críticas a respeito da educação, denunciando os baixos salários, o atraso na informatização, falta de recursos, criticando governos e etc. Então o que pensar destas várias matéria publicadas estranhamente de forma tão repentina?
Estaria a Zero Hora tentando se tornar referência no tema, para depois defender algo? Acho que sim. Com a indicação de José Clóvis Azevedo para a secretaria da educação de Tarso, os setores mais reacionários certamente ficaram temerosos. Até Tarso não queria Azevedo, que só foi indicado devido a um acerto interno no PT de espaços para as correntes. Isso porque Azevedo é abertamente contra a intervenção do setor privado na educação pública, o que diminui lucros dos amiguinhos da RBS, que ganharam muito dinheiro com os acordos feitos pela Governadora Yeda com o Banco Mundial.
Uma das cláusulas do acordo previa reformulações profundas dos planos de carreira do magistério, e a implantação de métodos pedagógicos privados nas escolas públicas, o que já vem sendo feito pelas Fundações. Se o novo secretário rompe com a festa neoliberal instalada por Yeda, muita gente perde dinheiro, a começar pelo grupo RBS, que já ganhou milhões em anúncios publicitários a respeito deste acordo com o BM.
O que Zero Hora faz, é preparar terreno para acionar um golpe conservador contra qualquer proposta de avanço da educação gaúcha. Estão construindo uma imagem de jornal que intende do tema educação. Mas não nos enganamos, para estes senhores, defensores da elite, o melhor é ter uma escola pública sucateada, formadora de “robôs” para trabalharem em suas empresas a preços de banana, sem que façam greves por melhores condições de vida. Não estão preocupados com a educação, mas sim com a manutenção da exploração e dos seus lucros.
Não deixaremos por menos, também pressionaremos este governo que toma posse dia 1° de janeiro. Nenhum direito a menos, queremos uma escola pública de qualidade para os filhos dos trabalhadores e para isso temos que ter concurso imediato, valorização salarial, investimento na reformulação física das escolas, com mais tempo de horas vagas para a formação profissional continuada, somada a uma informatização pesada que propicie aos mais pobres terem contato com o que tem de melhor das tecnologias educacionais.
Queremos uma escola pública tão boa quanto as privadas, e temos certeza que isso é possível, pois boa parte dos professores que trabalham nas privadas, também dão aulas nas públicas. O que falta é o trabalhos do estado para que as condições dos alunos sejam minimamente parecidas. Por isso seguiremos lutando como nunca, para que as promessas saiam do papel e que os avanços venham logo.
Sabemos que a disputa sobre os rumos da educação será difícil, pois o empresariado está unido por uma educação meritocrática voltada à preparação para o trabalho alienado acomodado com as desigualdades sociais, deixando que as escolas que preparam para o trabalho e cidadania crítica, sejam exclusividade de seus filhos, que estudam nas privadas pagas a peso de ouro. Mas não vamos permitir que isto aconteça, pois lutaremos para manter a autonomia pedagógicas das escolas públicas e defenderemos nas ruas que a educação pública siga atendendo aos interesses dos trabalhadores e não dos patrões.
Ao mesmo tempo a subserviência de Tarso com a Agenda 20/20 não nos ajuda em nada. O que vai acontecer? Não sabemos ainda, mas temos certeza da necessidade da pressão pública e da mobilização. A Zero Hora já iniciou a sua e nós, o que faremos?

sábado, 20 de novembro de 2010

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Utopia e Barbárie

“Meu desafio é captar o real”[...] a fotografia é um retrato da realidade, o cinema são 24 retratos da realidade por segundo”

Sílvio Tendler



Acabei de assistir o filme “Utopia e Barbárie” de Sílvio Tendler, um baita documentarista que adoro. Dei a sorte de pegar a estréia do filme no CineBancários com direito a debate com o diretor no fim do filme, à moda antiga dos tempos do cinema novo.
Não sou crítico de cinema, mas senti vontade de compartilhar algumas sensações sobre o que vi. O filme é um mosaico, complexo e diversificado das utopias do século XX no pós-Segunda Guerra Mundial, e de como algumas delas tornaram-se ou foram derrotadas pela barbárie. Ele parte do universal para o particular. Do mundo para o Brasil. Analisa qual a relação estreita entre a utopia e a barbárie que apesar de serem diferentes e até opostas, são dialeticamente entrelaçadas.
Várias discussões são abertas no filme. A bomba atômica que pôs fim à Segunda Guerra, o ano de 1968, a contracultura, o Vietnam, a luta contra o stalinismo, ditaduras, revolução cubana, Brasil e por aí vai, até chegar em questões mais atuais como a luta anti-globalização e outros.
Tudo isso, feito através de depoimentos de pessoas que participaram dos episódios e de recordações do próprio diretor. Na verdade, a impressão que se tem do filme ao final, é que ele se trata de uma auto-biografia, mas de tipo diferente, pois na maioria dos episódios em que Tendler se coloca como cooparticipante, quem conta o fato são outros.
O filme abre mais uma infinidade de questões que são impossíveis de serem descritas de forma simplista em poucas linhas. Ufa!!! Não dormi direito toda a noite pensando coisas, que o filme questiona.
O documentário usa uma linearidade da história, mas de maneira radicalmente multifacetada. Isso é o ponto alto do filme. Fiquei com o sentimento de estímulo a militância, mas de decepção pelas opções políticas derrotadas, como o Socialismo do leste europeu, a via chilena e a revolução brasileira. A barbárie parece ter vencido a luta no século XX. Como fazer para que isso não se repita no século XXI? O diretor disse que a contribuição dele é os filmes questionadores, o que faz bem, mas e a nossa? Eu não sei fazer filmes!
As passagens dispensáveis do filme ficam por conta do peso inexplicável dado à Dilma Rousseff falando sobre a luta contra a ditadura, já que nunca passou de uma ilustre desconhecida sobre isso. A única explicação possível é a campanha, embora o diretor tenha negado veementemente ao final do filme. A segunda é uma decepção. Ferreira Gular fala uma infinidade de bobagens completas a respeito da opção das esquerdas brasileiras, trata de modo desrespeitoso a luta de Mário Alves, citado nominalmente, e de outros tantos, e para terminar fala uma bobagem grotesca sobre o Chile ao afirmar que o Allende caiu por causa da divisão da esquerda e do Partido Socialista que abandonou o presidente, informação que não sei como ele inventou. Sempre achei que quem tinha dado o golpe era o exército! Deu a entender também que a ditadura no Brasil aconteceu devido a provocação da esquerda guerrilheira, o que é nada mais que a velha visão da direita reacionária viúva do golpe. Só me irrito, quando ouço alguém que pousa de progressista reproduzir uma posição política destas.
Outro espetáculo à parte eram a presença do galo missioneiro Olívio Dutra e o arrependido, revisionista e ex-comunista Raul Pont, que cada vez mais me espanta com seus comentários. Faz anos que toda vez que presencio uma fala do Raul, sempre inicia apresentando justificativas ridículas para ter virado a casaca, o que demonstra que ele sabe muitíssimo bem o que está fazendo, de maneira incomodada. Precisa se justificar sempre, a opção política de ter se conformado com a reforma do estado burguês, assim como o campo majoritário petista. Daí para virar a mesma máfia que virou a Unidade na Luta é só um passo.
Por fim, achei emocionante a homenagem que é feita ao camarada Apolônio de Carvalho. É inacreditável que Apolônio ainda seja tão desconhecido, devido sua história e exemplo de vida. Quando os livros falarão mais de heróis como esta pessoa encantadora que exalava exemplo de luta, otimismo e esperança em um mundo socialista?