quarta-feira, 21 de abril de 2010

Utopia e Barbárie

“Meu desafio é captar o real”[...] a fotografia é um retrato da realidade, o cinema são 24 retratos da realidade por segundo”

Sílvio Tendler



Acabei de assistir o filme “Utopia e Barbárie” de Sílvio Tendler, um baita documentarista que adoro. Dei a sorte de pegar a estréia do filme no CineBancários com direito a debate com o diretor no fim do filme, à moda antiga dos tempos do cinema novo.
Não sou crítico de cinema, mas senti vontade de compartilhar algumas sensações sobre o que vi. O filme é um mosaico, complexo e diversificado das utopias do século XX no pós-Segunda Guerra Mundial, e de como algumas delas tornaram-se ou foram derrotadas pela barbárie. Ele parte do universal para o particular. Do mundo para o Brasil. Analisa qual a relação estreita entre a utopia e a barbárie que apesar de serem diferentes e até opostas, são dialeticamente entrelaçadas.
Várias discussões são abertas no filme. A bomba atômica que pôs fim à Segunda Guerra, o ano de 1968, a contracultura, o Vietnam, a luta contra o stalinismo, ditaduras, revolução cubana, Brasil e por aí vai, até chegar em questões mais atuais como a luta anti-globalização e outros.
Tudo isso, feito através de depoimentos de pessoas que participaram dos episódios e de recordações do próprio diretor. Na verdade, a impressão que se tem do filme ao final, é que ele se trata de uma auto-biografia, mas de tipo diferente, pois na maioria dos episódios em que Tendler se coloca como cooparticipante, quem conta o fato são outros.
O filme abre mais uma infinidade de questões que são impossíveis de serem descritas de forma simplista em poucas linhas. Ufa!!! Não dormi direito toda a noite pensando coisas, que o filme questiona.
O documentário usa uma linearidade da história, mas de maneira radicalmente multifacetada. Isso é o ponto alto do filme. Fiquei com o sentimento de estímulo a militância, mas de decepção pelas opções políticas derrotadas, como o Socialismo do leste europeu, a via chilena e a revolução brasileira. A barbárie parece ter vencido a luta no século XX. Como fazer para que isso não se repita no século XXI? O diretor disse que a contribuição dele é os filmes questionadores, o que faz bem, mas e a nossa? Eu não sei fazer filmes!
As passagens dispensáveis do filme ficam por conta do peso inexplicável dado à Dilma Rousseff falando sobre a luta contra a ditadura, já que nunca passou de uma ilustre desconhecida sobre isso. A única explicação possível é a campanha, embora o diretor tenha negado veementemente ao final do filme. A segunda é uma decepção. Ferreira Gular fala uma infinidade de bobagens completas a respeito da opção das esquerdas brasileiras, trata de modo desrespeitoso a luta de Mário Alves, citado nominalmente, e de outros tantos, e para terminar fala uma bobagem grotesca sobre o Chile ao afirmar que o Allende caiu por causa da divisão da esquerda e do Partido Socialista que abandonou o presidente, informação que não sei como ele inventou. Sempre achei que quem tinha dado o golpe era o exército! Deu a entender também que a ditadura no Brasil aconteceu devido a provocação da esquerda guerrilheira, o que é nada mais que a velha visão da direita reacionária viúva do golpe. Só me irrito, quando ouço alguém que pousa de progressista reproduzir uma posição política destas.
Outro espetáculo à parte eram a presença do galo missioneiro Olívio Dutra e o arrependido, revisionista e ex-comunista Raul Pont, que cada vez mais me espanta com seus comentários. Faz anos que toda vez que presencio uma fala do Raul, sempre inicia apresentando justificativas ridículas para ter virado a casaca, o que demonstra que ele sabe muitíssimo bem o que está fazendo, de maneira incomodada. Precisa se justificar sempre, a opção política de ter se conformado com a reforma do estado burguês, assim como o campo majoritário petista. Daí para virar a mesma máfia que virou a Unidade na Luta é só um passo.
Por fim, achei emocionante a homenagem que é feita ao camarada Apolônio de Carvalho. É inacreditável que Apolônio ainda seja tão desconhecido, devido sua história e exemplo de vida. Quando os livros falarão mais de heróis como esta pessoa encantadora que exalava exemplo de luta, otimismo e esperança em um mundo socialista?

Nenhum comentário:

Postar um comentário